Existe uma hierarquia não declarada na música italiana. No topo, a figura do cantautore: o homem que escreve, interpreta, sofre e filosofa. Ele é visto como herdeiro legítimo da tradição, de Lucio Dalla a Francesco De Gregori, passando por Marco Mengoni ou Ultimo. A eles se atribui profundidade, relevância, densidade.

Já a mulher pop? Ela está sempre à prova. O Festival de Sanremo 2026 reforça essa sensação. Tudo indica que o troféu deve ficar com uma apresentação masculina, seja a dupla Fedez & Masini ou o fenômeno popular de Sal Da Vinci, que vive um momento de rebranding interessante e altamente estratégico (tema para outro texto, porque merece). Enquanto isso, propostas femininas artisticamente consistentes, como Levante, Bambole di Pezza e Ditonellapiaga, orbitam bem entre narrativa crítica e dominam as redes sociais, mas dificilmente aparecem como favoritas ao prêmio.

E aí vem a reflexão: quando uma artista entrega performance, estética, emoção e refrão forte, o rótulo vem rápido: “comercial”. Para a mulher, o adjetivo soa como defeito. Para o homem, é a legitimidade, a chancela popular.

Historicamente, Sanremo evidencia esse padrão. Mulheres venceram, claro – Angelina Mango, em 2024, quebrou um hiato de 10 anos. Mas quantas foram celebradas como autoras “definitivas” da cultura italiana na mesma proporção que seus colegas homens? Laura Pausini virou gigante global, mas na Itália é tratada mais como fenômeno pop duvidoso – basta olhar a enxurrada de críticas à sua coapresentação neste ano – do que como patrimônio artístico. Giorgia é reverenciada vocalmente, mas raramente colocada no pedestal intelectual dos cantautori. Nem precisa ir muito longe: no ano passado, com La Cura Per Me, ela perdeu para Olly e sua Balorda Nostalgia, deixando o público, principalmente fora da Itália, senza parole.

E quando surgem artistas que desafiam isso, como Annalisa ou Elodie, o debate rapidamente escorrega para figurino, coreografia, sensualidade. O corpo entra na conversa antes da composição. Gaia Gozzi, a ítalo-brasileira, é assunto pelas formas exuberantes. Noemi, ao contrário, porque atingiu o corpo slim dos sonhos. A narrativa sobre as mulheres é vazia.

Enquanto isso, o júri técnico tende a premiar introspecção masculina como sinônimo de profundidade. A mulher pop precisa equilibrar talento vocal, credibilidade autoral, contenção estética e, de preferência, evitar parecer “leve demais”. Ditonellapiaga é o exemplo da temporada 2026.

Há quem diga que existe também um fator geracional: o pop feminino muitas vezes dialoga com estética internacional, dança, linguagem contemporânea. Isso é lido como importação, não como identidade italiana. Enquanto o homem que segura o microfone parado com arranjo minimalista é visto como guardião da tradição e, principalmente, dos bons costumes na Itália de Giorgia Meloni.

Uma sociedade que ainda debate papéis de gênero de forma conservadora inevitavelmente projeta isso na cultura pop. A música popular é um termômetro social e, na Itália, o termômetro ainda marca resistência quando o protagonismo é feminino e vem com força, autonomia e identidade.

E antes que alguém diga que isso é exagero, vale lembrar de Raffaella Carrà. Um fenômeno absoluto fora da Itália, ícone pop na Espanha e na América Latina, referência estética e televisiva que atravessou décadas. Ainda assim, por muito tempo foi tratada dentro do próprio país como “a loira do entretenimento”, a showgirl exuberante, quase caricata, nunca com a mesma reverência intelectual dedicada aos cantautori. Seu legado cultural é imenso, mas frequentemente enquadrado como espetáculo, não como construção artística imortal.

Hoje à noite, independentemente de quem vença em Festival de Sanremo, a pergunta permanece. Porque enquanto a artista mulher precisar justificar sua relevância antes mesmo de cantar, o debate vai além da musica: é estrutural.

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