Bad Bunny não ganhou o Grammy de Álbum do Ano por moda. Ganhou porque construiu memória coletiva. Pela primeira vez na história do Grammy, um álbum totalmente em espanhol levou o prêmio mais importante da noite. Isso não é um detalhe. É um sinal claro de mudança. A indústria não premiou um idioma. Premiou uma verdade emocional capaz de atravessar fronteiras, culturas e gerações.

DTMF é um projeto que olha para dentro — e para trás. Mistura plena, bomba, salsa e elementos urbanos não para inovar por capricho, mas para se ancorar na identidade porto-riquenha e, a partir dela, dialogar com o mundo. É um disco que entende de onde vem antes de pensar até onde pode chegar.

E isso estava escrito desde o lançamento. Em texto publicado no dia 9 de janeiro neste mesmo espaço, cravei que só a “xenofobia musical” tiraria o prêmio dele.

O título explica tudo: “Debí tirar más fotos”. Uma frase simples, quase cotidiana, que carrega um peso enorme. Fala do arrependimento silencioso de não ter estado presente o suficiente enquanto a vida acontecia. Em uma era de stories que desaparecem em 24 horas, o álbum pergunta o que acontece com aquilo que não registramos, com o que tomamos como garantido, com as pessoas que acreditamos que seriam eternas.

É por isso que ele conecta tanto.

O disco não idealiza o passado. Não romantiza a nostalgia nem afirma que “antes era melhor”. Ele diz algo mais desconfortável — e mais honesto: o passado foi real, e eu não cuidei dele como devia. Esse reconhecimento não é juvenil. É profundamente adulto.

E o álbum chega no momento exato. Depois da pandemia, de lutos não resolvidos, de migrações forçadas, de famílias separadas e de uma vida acelerada demais, milhões de pessoas estão revisitando seu próprio arquivo emocional. Pensando em quem não ligaram. No que normalizaram e já não existe mais.

Musicalmente, DTMF faz algo ainda mais inteligente: não corre atrás do hit imediato. Não soa como tendência. Soa como memória. Tem silêncio, atmosfera, textura. Respira. Permite sentir.

No fundo, Bad Bunny venceu porque fez algo cada vez mais raro na música pop: não falou de sucesso. Falou de tempo. E o tempo é o único tema que nos iguala a todos.

Quando um álbum consegue dizer isso sem gritar, sem maquiar e sem vender uma fórmula, ele não vira viral por causa do algoritmo.

Ele vira inesquecível.

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