É 2026 e um novo esporte internacional pauta o mundo da música: cancelar a antes “incancellabile” Laura Pausini. E depois das polêmicas regravações de La Mia Storia Tra Le Dita e Due Vite, e da intepretação do Hino da Itália na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, a bola da vez é sua participação como coapresentadora do Festival de Sanremo.
Em tempos de polarização crônica, ela virou quase um teste de Rorschach emocional: ou você é pausinista de carteirinha ou acha que seu modelo está ultrapassado. Então, no Festival de Sanremo dirigido por Carlo Conti, vimos outra Laura diferente, menos loquaz, menos debochada e, infelizmente, menos espontânea. Uma Laura da “terceira via”.
Conti ama dizer que gosta de improviso e leveza. Mas quem o acompanha no festival sabe: há método, há ritmo, há rédea curta. E Laura, que costuma transbordar emoção, verbo, intensidade, está contida. Composta. Disciplinada. Quase militar.
Laura é um furacão. Difícil de segurar. Mas no palco do Teatro Ariston que a revelou para o mundo prometeu falar menos. Ele brincou que também falaria. No fim, os dois falaram menos. E isso, curiosamente, incomodou. Virou pauta na imprensa italiana, que tem sido mordaz com suas aparições mais recentes.
O que esperavam dela? O meme? A gafe internacional? O “nossa senhora” ao vivo no Eurovision Song Contest que rodou o planeta?
Em vez disso, tivemos ironia leve, piadas em espanhol, o “Carlos Cuentas”, o constrangimento calculado do microfone — “primeiro você colocou aqui, agora eu tenho na minha mão”. Uma piscadela para a câmera. Controle. Timing. Consciência de palco.
Mas quando Laura não explode, dizem que ela murchou.
Laura Pausini e a estratégia para o Festival de Sanremo
E agora surge a narrativa conveniente: perfeita para o “Festival TeleMeloni”, uma referência a Giorgia Meloni, primeira ministra da Itália e representante da extrema-direita no país. Rótulos fáceis são sempre mais sedutores do que análises complexas.
Mas e se — atenção! — isso não for mediocridade?
E se for estratégia?
Laura Pausini construiu uma carreira internacional porque entende temperatura de palco. Ela sabe quando incendiar e quando preservar. Em “seu” Sanremo, talvez tenha escolhido não ser a protagonista da polêmica, mas da harmonia. Talvez tenha entendido que nem todo palco é arena de show.
Ela até mencionou, quase inocentemente na primeira noite, um possível dueto com Tiziano Ferro — e a internet já se armou. Porque com Laura, tudo vira estopim. Ontem, com Achille Lauro, disseram que ela – pasmem – desafinou.
Há conexão real com Conti, embora não seja a ideal para seu público. Ele a tranquiliza, mas ao mesmo tempo tolhe. Ela brinca que sempre precisa de um “Carlotan” – trocadilho para o Lexotan – para sobreviver ao festival. É leve. É humano. É menos espetáculo e mais bastidor.
E talvez seja exatamente isso que incomoda.
Porque Laura funciona melhor quando divide opiniões, dizem. Quando provoca. Quando é tempestade. Mas uma artista do tamanho dela não precisa provar intensidade gritando. Às vezes, maturidade é saber não morder a isca. A Laura incendiária continua ali. Só que agora ela escolhe quando riscar o fósforo.
E isso, meus caros, não é fraqueza. É poder.