Algumas afirmações são irrefutáveis: Bad Bunny fez no dia 20 de fevereiro de 2026 o melhor show latino já visto no Brasil, abrindo as duas noites em que a Debí Tirar Más Fotos Tour passou pelo Allianz Parque. Sobre isso não há discussão. Daí a dizer que a partir dali é que o brasileiro abraçou sua latinidade vai uma enorme diferença.

Aliás, é quase leviano. Benito lotou dois estádios por questões multifatoriais, que vão desde o hype de seu último álbum, o Grammy, o Super Bowl, o sucesso no Spotify, seu posicionamento político e social e, também, porque é resultado de uma série de fenômenos semelhantes abraçados pelos brasileiros.

Colocá-lo como único representante de um movimento que há anos arrebata fãs no Brasil é esquecer o legado, por exemplo, do RBD. Ou da Shakira. Ou do Ricky Martin. Ou do Menudo. Ou da Thalia. Ou de tantos outros que têm legiões de fãs que falam português. O fã de música latina sempre esteve aqui.

Nós somos uma prova disso. Festas como a Súbete!, cujo bloquinho de Carnaval reuniu mais de 30 mil pessoas em São Paulo há uma semana, atestam que Bad Bunny é resultado, não o fator primário.

O que acontece em 2026 é a descoberta do mercado. A música latina deixou de ser nicho para ocupar o centro. Virou cool hablar español, não é mais a “breguice de quem vê novela do SBT”.

Esse público sempre esteve aqui e ocuparia quantos Allianz estivessem disponíveis por seu artista favorito, mas faltava investimento. Faltava a crença externa – aquela que sempre esteve aqui presente – na música hispano cantante. Sempre fomos milhares que moveram outros milhares e talvez, hoje, sejamos milhões porque nunca arredamos o pé da importância do pertencimento.

Benito não inaugura uma era. Ele consolida uma história.

O que acontece agora é que o algoritmo trabalha a favor, as marcas entenderam o potencial econômico, e as plataformas traduziram números em respeito. A latinidade deixou de ser nicho afetivo para se tornar força de mercado. E mercado, quando reconhece valor, amplia palco.

Há algo simbólico no fato de que o maior artista latino do século XXI seja, ao mesmo tempo, tão político, tão identitário e tão pop. Ele não dilui sua cultura para caber no mundo — ele expande o mundo para que sua cultura caiba inteira. Talvez por isso o impacto seja diferente. Não é só sobre hits ou recordes. É sobre pertencimento. É sobre milhares de brasileiros que sempre souberam cantar em espanhol descobrirem que nunca estiveram sozinhos.

Bad Bunny é um fenômeno. Mas, sobretudo, é consequência. A diferença é que agora há um mundo através das telas que não vai deixar que seu legado se perca entre estatísticas invisíveis ou narrativas equivocadas.

Não começamos a amar a música latina ontem. Só paramos de fingir que era pouco.

@ 2015 – 2025 . Diretos Reservados . Latin Pop Brasil . by grupodemidia.com.br