O escândalo envolvendo Julio Iglesias, acusado por duas ex-funcionárias de assédio sexual, e a desistência de Pedro do Big Brother Brasil 2026 após tentar beijar à força a participante Jordana, não são episódios isolados. São expressões diferentes — e complementares — de um mesmo problema estrutural: a normalização histórica do comportamento masculino invasivo, sustentada por poder, silêncio e conivência social.

No caso de Julio Iglesias, a denúncia inclui depoimentos de duas ex-funcionárias que relatam ter sofrido assédio sexual em um ambiente descrito como de controle constante e intimidação, enquanto trabalhavam para o cantor em 2021, em suas mansões na República Dominicana e nas Bahamas. Os relatos fazem parte de uma investigação exclusiva do elDiario.es em colaboração com a Univision. Nesta segunda-feira (19), ele pediu interferência nos autos do Ministério Público, que negou a demanda.

Não se trata apenas de acusações individuais, mas de um padrão clássico de abuso de poder: na Espanha, um homem famoso, rico, idolatrado, em posição de empregador, criando um ambiente onde o “não” se torna difícil — ou perigoso. É o patriarcado em sua forma mais explícita: quando prestígio e autoridade são usados como escudos morais.

No BBB, o caso Pedro foi mais assustador. A violência gravada. Exposta em rede nacional. E, ainda assim, há quem diga que o episódio foi um mal-entendido. Que o assediador sofre de distúrbios psiquiátricos. Enquanto isso, ele confessou, sem pudor, que cobiçava Jordana há dias e achava que era correspondido, por isso fez a “investida” em um lugar estrategicamente pensado por ter um ponto cego nas câmeras.

Homens não “passam do limite” por impulso. Eles avançam porque aprenderam que podem. Porque durante décadas — séculos — a sociedade ensinou que o desejo masculino é prioridade, que a insistência é romantizada e que o corpo feminino é território negociável.

O elo entre os dois casos é claro: homens forjados a acreditar que desejo basta, que insistência é charme, que poder gera permissão. Essa mentalidade é reforçada por discursos contemporâneos como os da cultura redpill, que romantizam dominação, desprezam o consentimento e tratam mulheres como objetos de validação ou conquista.

O problema não começa no ato — começa na ideia de que o homem “merece”, “pode” ou “tem direito”.

Quando figuras como Julio Iglesias são defendidas com o argumento de que “eram outros tempos”, o que se faz é proteger o sistema, não a arte. A nostalgia serve como anestesia moral para evitar a pergunta central: por que comportamentos abusivos foram tolerados por tanto tempo?

Não se trata de apagar carreiras, mas de parar de tratar violência simbólica e física como preço do talento masculino.

Esses episódios mostram um ponto de virada desconfortável para muitos homens:

o de que consentimento não é negociável,

admiração não é autorização,

fama não é álibi.

A sociedade começa, ainda que tardiamente, a desmontar a ideia de que certos homens estão acima do questionamento. E isso gera reação, resistência e ataques — principalmente quando atinge ídolos ou privilégios.

Não é apenas sobre Julio Iglesias e Pedro. É sobre um sistema.

Do pop latino aos realities, o debate é o mesmo: até quando comportamentos machistas serão tratados como exceção, quando são regra?

O que está em jogo não é a reputação de um artista ou a imagem de um participante de TV.

É a lógica patriarcal que sempre contou com o silêncio e que precisa, urgentemente, ser confrontada em voz alta.

@ 2015 – 2025 . Diretos Reservados . Latin Pop Brasil . by grupodemidia.com.br