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Shakira é mesmo isenta? Foto com líder conservadora reacende debate sobre postura política da cantora

Uma fotografia de Shakira ao lado de Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri e uma das principais representantes da direita espanhola, reacendeu a discussão sobre a relação da cantora colombiana com a política.

Publicada pela própria Ayuso em 20 de outubro, a imagem foi acompanhada de elogios ao sucesso da temporada de shows da artista na capital espanhola. A política destacou o impacto econômico da passagem da turnê Las Mujeres Ya No Lloran pela cidade e associou o evento à projeção internacional de Madri.

A fotografia, isoladamente, não representa um endosso político. Artistas se encontram com autoridades de diferentes partidos, especialmente quando suas apresentações movimentam grandes estruturas econômicas e culturais.

O questionamento surge, porém, quando esse encontro é colocado ao lado de outros episódios recentes envolvendo Shakira e o uso de sua imagem em campanhas eleitorais.

Uma neutralidade que tem limites

No início de outubro, páginas brasileiras dedicadas a Shakira relataram ter recebido uma orientação de sua equipe para não utilizar imagens da cantora em conteúdos associados a candidatos políticos.

O episódio ocorreu durante a mobilização do movimento #FandomsComLula, formado por comunidades de fãs que passaram a participar da campanha presidencial brasileira.

É importante recuperar uma distinção que o LatinPop Brasil esclareceu em sua cobertura: o fã-clube Shakira Brasil afirmou posteriormente que a decisão de não participar das manifestações eleitorais foi tomada internamente. A orientação atribuída à equipe da artista se restringia ao uso de fotos e vídeos em materiais políticos.

Após a primeira repercussão do caso no Brasil, os fãs esclareceram que havia uma orientação para não utilizar o nome, as fotografias ou os vídeos de Shakira em campanhas políticas, nem associar oficialmente a cantora a candidaturas. A restrição ao uso de sua imagem não significava uma proibição de participação política individual dos fãs, mas evidenciava o cuidado da equipe em preservar a neutralidade eleitoral da artista.

Ainda assim, o episódio revela uma preocupação recorrente da cantora em evitar que sua imagem seja associada diretamente a candidaturas.

Em junho deste ano, durante as eleições presidenciais colombianas, Shakira desmentiu uma montagem que a vinculava à campanha de Iván Cepeda. Na ocasião, afirmou que não apoiava nenhum candidato e que não havia autorizado o uso de sua imagem.

A postura não é inédita. Ao longo da carreira, Shakira tem demonstrado maior disposição para defender causas sociais do que para assumir preferências partidárias.

Shakira nunca se posicionou politicamente?

A resposta é não.

Em 2021, durante os protestos contra o governo de Iván Duque, Shakira condenou a violência contra manifestantes e pediu providências diante das denúncias de violações de direitos humanos.

Em 2018, também criticou a possibilidade de cortes no orçamento colombiano destinado à educação, uma das causas centrais de sua atuação filantrópica por meio da Fundação Pies Descalzos.

Esses episódios mostram que a cantora não é indiferente a todas as questões políticas.

O que se observa é uma distinção entre defender determinadas causas e associar publicamente sua imagem a candidatos ou partidos.

Essa escolha é legítima, mas também pode ser analisada criticamente, especialmente quando uma artista de projeção internacional aparece ao lado de uma autoridade que representa uma corrente política claramente identificada.

A proximidade com o poder político não começou em Madri

A relação de Shakira com ambientes políticos vem de décadas.

Entre 2000 e 2011, a cantora manteve um relacionamento com Antonio de la Rúa, filho de Fernando de la Rúa, presidente da Argentina entre 1999 e 2001.

Antonio também desempenhou funções importantes na gestão da carreira da artista.

A convivência com alguém diretamente ligado a uma família presidencial colocou Shakira próxima de estruturas de poder político e de suas repercussões públicas.

Não há, contudo, elementos suficientes para afirmar que essa experiência tenha moldado suas posições ideológicas ou explique sua atual estratégia de comunicação.

O dado é relevante como parte de sua trajetória, não como prova de uma orientação conservadora.

Enquanto Shakira evita candidatos, outros artistas se posicionam no Brasil

O contraste se tornou mais evidente durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 2026.

Artistas latino-americanos com públicos expressivos no país decidiram manifestar apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

O uruguaio Jorge Drexler publicou uma fotografia fazendo o gesto associado à campanha, acompanhada da mensagem de apoio ao presidente.

Os mexicanos Alfonso Herrera e Christian Chávez, conhecidos por suas trajetórias no RBD, também se manifestaram. Herrera compartilhou uma fotografia antiga com Lula, enquanto Chávez publicou uma mensagem favorável à candidatura, mencionando democracia e justiça social.

Fora da América Latina, as manifestações incluíram nomes como Roger Waters, Tom Morello e a banda The Strokes.

Nesta sexta-feira (23), Madonna também compartilhou uma publicação de apoio à reeleição de Lula, com referências à democracia, aos povos indígenas, à Amazônia, à educação e à cultura.

As manifestações mostram diferentes maneiras pelas quais artistas internacionais decidiram participar do debate eleitoral brasileiro.

Isso não significa que todos os músicos devam declarar voto ou que a ausência de um endosso constitua, por si só, apoio ao campo político oposto.

A fotografia com Ayuso significa que Shakira é conservadora?

Não necessariamente.

Isabel Díaz Ayuso é uma das figuras mais conhecidas da direita espanhola, e a publicação da fotografia foi feita pela própria política, que aproveitou o sucesso dos shows para promover o impacto econômico e cultural da Comunidade de Madri.

Não há declaração pública de Shakira apoiando o Partido Popular ou a agenda política de Ayuso.

Por outro lado, a imagem demonstra como a presença de uma celebridade pode ser utilizada na comunicação pública de uma autoridade política, mesmo quando não existe endosso eleitoral.

É justamente nesse ponto que surge uma contradição digna de debate: a preocupação em evitar associações partidárias não impede que a imagem de Shakira seja exibida por representantes políticos e incorporada a suas narrativas institucionais.

A questão, portanto, não é simplesmente determinar se Shakira pertence à direita ou à esquerda. É compreender até que ponto a neutralidade defendida por uma artista pode ser preservada quando sua imagem circula em contextos políticos diferentes.

No caso da colombiana, os episódios recentes mostram uma postura consistente de distanciamento das disputas eleitorais, combinada com manifestações pontuais sobre questões sociais e encontros públicos com autoridades de diferentes orientações.

Shakira construiu uma carreira que vai muito além da música. Defende a educação, abraça causas sociais e mantém uma relação histórica com o público LGBTQIAPN+, que também contribui para seu enorme sucesso comercial. Por isso, sua opção pela neutralidade eleitoral merece ser questionada, especialmente quando estão em debate direitos fundamentais e garantias democráticas. Ninguém é obrigado a apoiar um candidato, mas existe uma diferença entre não declarar voto e evitar qualquer associação pública com uma mobilização política. Para uma artista que tantas vezes usou sua voz em defesa de causas sociais, é legítimo perguntar onde ela estabelece essa fronteira. E por quê.

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