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Quem é Bad Gyal, espanhola que detonou Taylor Swift e divide tanto o público

Bad Gyal conseguiu nesta semana uma proeza bastante característica de sua carreira: provocar uma enorme discussão com poucas frases. Ao ser questionada sobre artistas com quem aceitaria colaborar, a espanhola afirmou que não faria uma música com Taylor Swift nem diante de uma proposta de € 3 milhões e recorreu a um meme pouco gentil para explicar sua falta de identificação com a americana: comparou sua música a um “frango seco, sem especiarias”, sem graça ou tempero.

Para quem acompanha a música espanhola ou o universo urbano latino, o episódio é apenas mais um capítulo de uma personalidade pública conhecida pela franqueza e pela pouca preocupação em parecer consensual. Para parte do público brasileiro, entretanto, a declaração trouxe uma pergunta mais básica: afinal, quem é Bad Gyal?

Por trás do nome artístico está Alba Farelo, nascida em Vilassar de Mar, na Catalunha, em 1997. Em uma década, ela passou de gravações feitas de forma independente e um emprego em uma padaria para grandes arenas, contratos internacionais e colaborações com nomes como Karol G, Anitta, Tokischa, Young Miko, Quevedo, Myke Towers e Ivy Queen.

A trajetória ajuda também a explicar por que Bad Gyal desperta tanta rejeição quanto admiração.

Da internet ao centro do urbano espanhol

Bad Gyal começou a ganhar atenção em 2016, quando publicou “Pai”, uma adaptação em catalão de “Work”, de Rihanna e Drake. O registro circulou pela internet e apresentou uma artista que já demonstrava interesse por sonoridades jamaicanas e caribenhas.

Pouco depois, “Fiebre” se tornou seu primeiro grande sucesso autoral e ajudou a transformar um projeto essencialmente independente em carreira profissional.

Vieram então faixas como “Santa María”, “Alocao”, parceria com Omar Montes, “Zorra” e, anos depois, “Chulo pt.2”, com Tokischa e Young Miko.

Ao mesmo tempo, Bad Gyal construiu uma estética imediatamente reconhecível: unhas enormes, cabelos longos, moda ostensiva, sexualidade explícita e uma mistura deliberada entre códigos do luxo, do bairro, da pista e do universo urbano.

Seu primeiro álbum, La Joia, chegou em 2024. Em 2026, lançou Más Cara, segundo disco de estúdio, enquanto celebrava dez anos de carreira com três noites lotadas no Palau Sant Jordi, em Barcelona.

Por que Bad Gyal recebe tantas críticas?

Não existe uma única resposta.

A própria Bad Gyal já afirmou que começou a sentir rejeição ainda muito jovem por causa da forma como se vestia e se expressava. Com a fama, as críticas ganharam novas dimensões.

Uma delas é sua sexualidade pública. Figurinos, letras, coreografias e fotografias fazem do corpo uma parte evidente de sua linguagem artística. Isso já rendeu acusações de que ela se sexualizaria para vender ou de que reproduziria uma lógica machista.

Bad Gyal rejeita essa interpretação. Sua posição é que a autonomia está justamente no direito de escolher como quer exibir o próprio corpo e tratar da própria sexualidade.

É um debate que acompanha muitas mulheres da música urbana, mas que, no caso dela, tornou-se praticamente permanente.

E ela sabe cantar?

A voz é outro terreno frequente de discussão.

Bad Gyal nunca se apresentou como uma vocalista de tradição técnica comparável a grandes cantoras do pop. Ela mesma já reconheceu que existem intérpretes com recursos vocais muito maiores.

Sua música trabalha com Auto-Tune, efeitos, flow, produção eletrônica e interpretação como parte de uma linguagem específica. Para os críticos, isso frequentemente vira argumento para afirmar que ela “não sabe cantar”. Para quem entende sua proposta, avaliar Bad Gyal apenas pela potência ou pureza vocal ignora boa parte do que sustenta seu projeto.

Sua força está na soma de composição, escolha estética, produção, presença, ritmo e identidade.

Essa discussão também revela um conflito geracional recorrente na música popular: até que ponto uma artista precisa obedecer a parâmetros tradicionais de canto para ser considerada uma boa artista?

A polêmica sobre suas raízes musicais

Existe ainda uma questão mais complexa.

Bad Gyal é uma mulher branca espanhola cuja carreira foi construída com forte influência de dancehall jamaicano, reggaeton porto-riquenho e outras vertentes caribenhas.

Desde o início, essa escolha gera discussões sobre apropriação cultural, privilégio e a capacidade de uma artista europeia de transformar códigos criados em contextos negros e latino-americanos em capital cultural e comercial.

Bad Gyal nunca escondeu essas referências. Ao contrário, costuma falar abertamente de sua admiração pela música caribenha e colaborou com artistas fundamentais dessas cenas, incluindo Ivy Queen.

Isso não encerra o debate. Para seus críticos, reconhecer a origem não elimina as diferenças de poder envolvidas. Para seus defensores, seu trabalho faz parte de uma circulação cultural própria da música contemporânea e ajuda a expandir esses sons para outros públicos.

A tensão entre essas duas leituras acompanha praticamente toda sua carreira.

“Pija”, filha de ator e urbana demais ou de menos

Outra crítica surgiu em torno de sua origem.

Bad Gyal é filha do ator catalão Eduard Farelo e já foi acusada de construir uma identidade urbana sem ter vivido a realidade social que alguns associam ao gênero.

Ela nunca afirmou ter vindo de marginalidade ou pobreza extrema. Ao contrário, já ironizou a cobrança de que uma artista urbana precisaria ter passado fome ou participado do crime para ser considerada legítima.

Também trabalhou em uma padaria antes de conseguir viver da música, período frequentemente citado ao relembrar sua fase inicial.

É uma contradição que se tornou parte do próprio personagem público de Bad Gyal: ao mesmo tempo em que circula pelo luxo e pela moda internacional, mantém uma comunicação coloquial e uma estética ligada à rua e ao universo popular espanhol.

O ódio também passou pelo corpo

Em 2026, Bad Gyal falou ainda sobre outra face da hostilidade que recebe: comentários sobre seu corpo.

A cantora contou que vídeos com milhões de visualizações chegaram a concentrar críticas sobre sua magreza, aparência e envelhecimento, a ponto de afetarem sua disposição para subir ao palco.

É um exemplo de como a rejeição em torno da artista frequentemente ultrapassa a crítica musical e entra no território da aparência pessoal.

Bad Gyal reconhece que seus detratores são particularmente ruidosos nas redes. Ao mesmo tempo, também construiu uma comunidade extremamente fiel e capaz de lotar grandes espaços.

E então veio Taylor Swift

A nova controvérsia começou durante uma entrevista na Argentina.

Ao falar sobre possíveis colaborações, Bad Gyal demonstrou abertura para nomes como Lali e Tini. Quando precisou escolher alguém com quem não trabalharia, mencionou Taylor Swift.

Em um cenário hipotético no qual recebesse € 3 milhões para gravar com a americana, respondeu que recusaria.

Bad Gyal explicou que não se identifica com “suas ideias” nem com aquilo que a música de Taylor representa para ela. Depois citou memes que comparam as canções da americana a alimentos sem sabor, incluindo o já famoso “frango seco sem especiarias”.

Ela própria percebeu imediatamente o potencial da declaração e afirmou que não pretendia arrumar uma briga.

A ressalva não impediu a repercussão.

A fala funciona quase como um resumo daquilo que transformou Bad Gyal em uma figura tão polarizadora: ela raramente tenta encontrar a resposta mais diplomática quando pode dar a resposta que considera mais fiel ao que pensa.

Gostar dela continua opcional. Ignorá-la está ficando cada vez mais difícil.

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