CA7RIEL & Paco Amoroso: quando as apostas das produtoras viram problema para o público
O sucesso é uma excelente notícia para qualquer artista. Para as produtoras de shows, também. O problema começa quando uma turnê bem-sucedida passa a ser tratada como garantia de que a próxima terá a mesma demanda, independentemente da cidade, do tamanho da casa, do preço dos ingressos ou do intervalo entre as apresentações.
O caso de CA7RIEL & Paco Amoroso é um bom ponto de partida para essa discussão.
A dupla argentina, que viveu uma ascensão impressionante no último ano, anunciou uma nova passagem pelo Brasil com a FREE SPIRITS WORLD TOUR. No Rio de Janeiro, a apresentação marcada para 20 de novembro foi antecipada para o dia 19, com cerca de duas semanas de antecedência.
Os ingressos continuam válidos. Quem não puder comparecer pode buscar informações sobre reembolso. Administrativamente, parece uma solução simples. Para o público, está longe de ser.
Porque ninguém compra apenas um ingresso. Compra também a possibilidade de estar naquele lugar, naquela data.
Há fãs que viajam de outras cidades ou estados, compram passagens de ônibus ou avião, reservam hotéis, negociam folgas no trabalho e organizam compromissos familiares. Há quem precise contratar transporte, encontrar alguém para cuidar dos filhos ou simplesmente reorganizar uma rotina inteira para assistir a um espetáculo.
Antecipar um show em 24 horas pode parecer uma alteração pequena para quem administra uma agenda. Para quem comprou uma passagem não reembolsável, pode significar perder o evento.
E devolver o valor do ingresso não resolve esse problema.
O reembolso não paga necessariamente a diferença de uma passagem remarcada, a diária de hotel perdida, o transporte contratado ou os dias de trabalho reorganizados. Muito menos compensa a frustração de quem se programou durante meses para uma experiência que talvez não consiga mais viver.
O consumidor não pode ser tratado como a variável mais flexível de uma operação comercial.
É claro que produzir shows envolve riscos. A demanda oscila, os custos aumentam, as condições técnicas mudam e imprevistos acontecem. Nenhuma produtora tem obrigação de acertar todas as previsões.
Mas há uma diferença entre administrar um imprevisto inevitável e transformar decisões de planejamento em transtornos para o público.
Nos últimos anos, o mercado brasileiro assistiu a turnês anunciadas com grande ambição que acabaram canceladas ou redimensionadas. A turnê comemorativa A Festa, de Ivete Sangalo, prevista para 2024, é um exemplo de projeto que não chegou a acontecer conforme anunciado, em meio a divergências entre artista e produtora sobre a viabilidade e a execução do espetáculo.
Em outros casos, a baixa procura foi reconhecida expressamente como motivo para cancelamentos.
São situações diferentes, com circunstâncias próprias, mas que ajudam a levantar uma questão essencial: até que ponto o entusiasmo com o potencial comercial de um artista está sendo acompanhado por um estudo realista de público?
Uma turnê que funciona em determinado momento não necessariamente terá o mesmo desempenho um ano depois. Um artista pode lotar uma casa em São Paulo e não encontrar demanda equivalente no Rio de Janeiro. Pode mobilizar milhares de fãs nas redes sociais sem conseguir converter esse entusiasmo em ingressos vendidos.
E pode simplesmente não haver público suficiente para justificar determinadas praças, capacidades ou preços.
Isso não diminui o artista. É uma característica do mercado.
O Brasil é um país continental, com diferenças importantes de renda, hábitos de consumo, concentração de fãs e custos de deslocamento. Planejar uma turnê exige mais do que observar números de streaming, engajamento nas redes ou o sucesso de apresentações anteriores.
Exige conhecer o público que efetivamente compra ingressos.
No caso de CA7RIEL & Paco Amoroso, é importante fazer uma ressalva: não há informação pública suficiente para afirmar que a antecipação do show carioca tenha sido provocada por vendas abaixo do esperado. A mudança pode ter outras razões, e cabe à produção esclarecê-las.
Mas a ausência de uma justificativa transparente não elimina o problema enfrentado pelos consumidores. Pelo contrário, acrescenta uma camada de insegurança a uma alteração anunciada tão perto do evento.
Também não se trata de responsabilizar os artistas automaticamente por decisões que podem envolver contratos, disponibilidade de casas, fornecedores e diferentes empresas responsáveis pela operação.
A questão é estrutural.
Quando uma produtora anuncia uma data e começa a vender ingressos, estabelece um compromisso que vai além da entrega de um espetáculo. Ela mobiliza expectativas, recursos financeiros e a organização pessoal de milhares de pessoas.
Esse compromisso deveria ter peso real nas decisões posteriores.
Se o mercado quer crescer, receber turnês maiores e ampliar sua presença no circuito internacional, precisa amadurecer também na relação com o consumidor. Isso significa dimensionar melhor os projetos, comunicar alterações com transparência e compreender que oferecer reembolso não apaga todos os prejuízos provocados por uma mudança.
Há ainda uma dimensão frequentemente ignorada nessa discussão: a confiança.
Um fã que perde dinheiro ou deixa de assistir a um show por causa de uma alteração de última hora pode pensar duas vezes antes de comprar ingressos antecipadamente para a próxima turnê. E, quando essa insegurança se espalha, o prejuízo ultrapassa um evento específico.
Atinge o mercado inteiro.
O entusiasmo das produtoras com o sucesso de um artista é compreensível. O que não pode acontecer é esse entusiasmo substituir o planejamento, enquanto o público fica responsável por absorver as consequências.
O risco do negócio pertence a quem organiza o espetáculo. O respeito ao compromisso assumido com o público também.