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Quem tem fama também tem responsabilidade

Passado o primeiro turno das eleições, a política permanece exatamente onde sempre esteve: na vida cotidiana. Está no trabalho, na escola, no acesso à cultura e à moradia, nas relações afetivas, na liberdade religiosa, nas decisões sobre o próprio corpo e na possibilidade de determinados grupos viverem com direitos que não sejam renegociados a cada mudança de governo. Reduzi-la ao período eleitoral é ignorar que boa parte daquilo que define uma sociedade resulta, justamente, de escolhas políticas.

É nesse contexto que a velha recomendação para que artistas se mantenham neutros se torna cada vez mais difícil de sustentar. Pessoas capazes de influenciar milhões interferem em hábitos, linguagem e consumo, movimentam cifras enormes, pautam conversas e reúnem multidões. O alcance é reconhecido como poder quando vende discos, ingressos, produtos e campanhas publicitárias; não há razão para tratá-lo como irrelevante quando entram em cena democracia, direitos e questões sociais.

A popularidade, portanto, não traz apenas privilégios. Há uma responsabilidade social proporcional ao tamanho da plataforma conquistada, sobretudo porque muitos dos temas que atravessam a música latino-americana não existem fora da política. Identidade, imigração, gentrificação, racismo, direitos LGBTQIAPN+, desigualdade, pertencimento e resistência dizem respeito, em última instância, à distribuição de poder e à possibilidade de diferentes grupos ocuparem plenamente uma sociedade.

Em alguns momentos, essa responsabilidade exige uma posição inequívoca. A democracia é um deles.

Na tarde seguinte ao primeiro turno das eleições brasileiras, Jão publicou um longo texto sobre o resultado. Disse ter acordado frustrado, chamou atenção para os mais de 33 milhões de brasileiros que não haviam votado e comparou esse contingente à diferença de pouco mais de dois milhões de votos entre os candidatos que avançaram ao segundo turno. O objetivo era desmontar a ideia de que a eleição estivesse definida e mobilizar principalmente quem havia se abstido.

Não houve, porém, o recurso habitual a uma defesa genérica da cidadania, suficientemente ampla para não desagradar ninguém. Jão convocou aqueles que “não compactuam com esse projeto de país absurdo que tão querendo desenhar” e terminou sem qualquer margem para dúvida: “Se ainda resta alguma dúvida, dia 25 somos Lula 13.”

O posicionamento não surgiu agora. Em 2022, no Lollapalooza, Jão já havia incentivado jovens a tirar o título de eleitor e participar das eleições. Diante de um coro contra Jair Bolsonaro vindo da plateia, respondeu chamando aquele momento de “o maior hit desse festival”.

Quatro anos depois, o alcance é incomparavelmente maior. Jão passou a ocupar alguns dos maiores palcos brasileiros e construiu uma carreira de massa sem retirar de sua obra aquilo que durante décadas foi tratado pela indústria como risco comercial. Homens são amados, desejados e beijados em suas letras, clipes e shows sem que a sexualidade precise ser neutralizada para tornar o produto mais confortável ao grande público.

Essa ocupação também possui dimensão política, especialmente em um país no qual direitos da população LGBTQIAPN+ continuam atravessados por disputas legislativas, religiosas e eleitorais. Representatividade não substitui posicionamento, mas ambos se encontram quando um artista que alcançou enorme projeção pública compreende que a liberdade presente em sua própria trajetória depende da preservação de direitos coletivos.

A conversa recente de Jão com Elton John ajuda a dimensionar essa lógica. Depois do Rock in Rio, o brasileiro contou que o músico britânico falou sobre a importância de apoiar novos artistas LGBTQIAPN+. Há uma ideia de continuidade nessa troca que vai além da representatividade individual: conquistar um espaço importa, mas reconhecer as estruturas que permitiram essa conquista e contribuir para que outros também possam ocupá-lo amplia seu significado.

No universo latino, Bad Bunny e Residente representam duas gerações diferentes de uma relação ainda mais explícita entre música, identidade e política.

Residente construiu parte essencial de sua obra, primeiro no Calle 13 e depois em carreira solo, a partir das contradições da América Latina. Colonialismo, desigualdade, violência, identidade, soberania e resistência não aparecem como temas acrescentados posteriormente a uma carreira musical, mas como elementos constitutivos dela. Seu discurso sobre Porto Rico e sobre a América Latina acompanha sua produção artística porque a compreensão de pertencimento que sustenta uma coisa também sustenta a outra.

Bad Bunny levou essa lógica a uma dimensão global poucas vezes alcançada por um artista latino.

À medida que sua carreira cresceu, Porto Rico não foi diluído para facilitar sua entrada no mercado internacional. Aconteceu o contrário. A ilha ganhou mais espaço. A língua, os códigos culturais, as consequências da gentrificação, o deslocamento da população local, a condição política porto-riquenha e a defesa dos imigrantes passaram a circular dentro de uma obra consumida por centenas de milhões de pessoas.

A escolha ganha relevância justamente porque Bad Bunny já não depende desse discurso para conquistar espaço. Ele alcançou o centro da indústria global cantando majoritariamente em espanhol e poderia administrar esse lugar evitando temas capazes de provocar rejeição em parte do mercado norte-americano. Em vez disso, colocou essas questões diante de uma audiência cada vez maior e, neste ano, levou também ao palco do Grammy sua crítica às ações do ICE e sua defesa dos imigrantes.

Jão, Bad Bunny e Residente não fazem a mesma música, não pertencem à mesma geração e tampouco exercem sua influência da mesma maneira. O ponto de encontro está na compreensão de que alcançar milhões de pessoas não os coloca acima ou fora das sociedades às quais pertencem. Ao contrário, aumenta a capacidade de interferir no debate público e, consequentemente, a responsabilidade sobre a maneira como esse alcance é utilizado.

Essa relação ajuda a desmontar outra ideia recorrente: a de que posicionamento político necessariamente começa quando um artista declara apoio a um candidato. A política já está presente quando um latino insiste em cantar em espanhol diante de uma indústria que durante décadas associou universalidade ao inglês; quando a gentrificação de um território vira matéria de uma canção; quando questões coloniais são apresentadas a uma audiência global; quando um homem gay ocupa um estádio sem esconder seus afetos; ou quando direitos de mulheres, pessoas negras, imigrantes e da população LGBTQIAPN+ deixam de ser tratados como assuntos periféricos.

São questões de pertencimento, mas também de poder. Discutem quem consegue permanecer em determinado território, quem tem sua identidade reconhecida, quem pode constituir família, quem atravessa uma fronteira com segurança, quem ocupa os grandes espaços culturais e quais grupos continuam sujeitos a ter direitos fundamentais transformados em moeda de negociação política.

Não por acaso, são pautas historicamente associadas ao campo progressista e à esquerda. A defesa da diversidade, das minorias, dos direitos civis, da redução das desigualdades e da resistência a estruturas de exclusão não se torna neutra apenas porque aparece dentro de uma canção ou de um espetáculo pop. A cultura não apaga o conteúdo político dessas disputas; frequentemente é justamente o espaço que lhes permite alcançar públicos muito maiores.

Há, evidentemente, um custo nessa escolha. Posicionamentos podem significar perda de seguidores, campanhas de boicote, ataques virtuais, contratos e oportunidades comerciais. Quanto maior a carreira, maior também a estrutura financeira interessada em evitar qualquer declaração capaz de afastar consumidores. É por isso que responsabilidade social só adquire significado real quando não está condicionada à garantia de consenso.

Isso não significa exigir manifestações diárias sobre todos os acontecimentos. Popularidade não transforma artistas em especialistas, e a responsabilidade também está em reconhecer os limites do próprio conhecimento. Existe, porém, uma diferença importante entre selecionar de maneira consciente os debates nos quais se tem algo a contribuir e adotar o silêncio como estratégia permanente de preservação comercial.

A contradição aparece quando a influência é tratada como ativo econômico para negociar publicidade, vender produtos e lotar turnês, mas deixa de ser reconhecida como poder assim que seu exercício envolve algum risco. Uma audiência de milhões não muda de natureza de acordo com a conveniência de quem a conquistou. As mesmas pessoas que recebem uma indicação de consumo também recebem uma mensagem sobre democracia, pertencimento ou direitos.

O texto publicado por Jão depois do primeiro turno é especialmente simbólico por isso. Com uma carreira no auge e muito a perder, seria simples limitar-se a pedir que as pessoas votassem, sem dizer em quem, contra o quê ou em defesa de qual projeto de sociedade. A opção foi pela clareza.

É uma escolha que aproxima sua postura, guardadas todas as diferenças de contexto, de uma tradição bastante conhecida na música latino-americana e hoje representada em escala global por artistas como Bad Bunny e, há mais tempo, por Residente: a compreensão de que identidade cultural, pertencimento e resistência não são elementos decorativos de uma obra, mas partes de uma sociedade em disputa.

Quando democracia e direitos fundamentais estão em jogo, a neutralidade também produz consequências. Para quem conquistou uma plataforma capaz de chegar a milhões de pessoas, reconhecer isso é parte da responsabilidade que acompanha o privilégio de ser ouvido.

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