Pense nos maiores artistas pop do mundo hoje. Taylor Swift. Harry Styles. Bruno Mars. Justin Bieber. Agora pense no que faz com que esses artistas sejam tratados como gigantes. Não apenas números, sucessos ou estádios lotados, mas a capacidade de transformar uma turnê em acontecimento, criar imagens que permanecem na cultura pop, desenvolver conceitos próprios e fazer um show ser discutido para além das músicas que estão no repertório.
Na noite dessa sexta-feira (25), Jão fez exatamente isso em São Paulo.
Colocou cerca de 60 mil pessoas no Nubank Parque, estabelecendo, segundo informações divulgadas após o show, o maior público já recebido pelo estádio em um evento. No centro dele, construiu um palco 360º coberto por água, cercado por fogo, ocupado por bailarinos, atores e símbolos de uma história sobre amor, perda, distração, morte e vida.
E entregou um espetáculo que não deve absolutamente nada às grandes turnês internacionais que aprendemos a tratar como referência. A palavra mais importante nessa frase, talvez, seja “aprendemos”.
Existe no Brasil uma espécie de selo informal de sofisticação que ainda vem escrito em inglês. Consumimos artistas americanos e britânicos como universais, enquanto frequentemente tratamos quem produz pop em português como fenômeno doméstico. O primeiro pode ser ambicioso, conceitual, grandioso. O segundo precisa provar que não é apenas popular.
É um velho viralatismo cultural aplicado ao pop.
Não significa que todo brasileiro tenha obrigação de ouvir música brasileira, muito menos gostar de Jão. Significa perguntar por que tantas vezes reconhecemos imediatamente excelência, inovação e dimensão artística quando elas chegam embaladas pela indústria anglófona, mas usamos uma régua diferente quando o mesmo nível de investimento, concepção e ambição nasce aqui.
Se Harry Styles tivesse feito exatamente o show que Jão fez em São Paulo, provavelmente estaríamos falando sobre um acontecimento do pop mundial. Haveria vídeos destrinchando sua concepção, análises sobre a arquitetura do palco e elogios à maneira como um artista conseguiu transformar um estádio gigantesco em um espaço íntimo.
Jão fez isso em português.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais ainda precisamos explicar o tamanho do que aconteceu.
Um estádio sem frente ou fundo
O palco 360º era um desejo antigo do cantor, pensado desde a SUPERTURNÊ, e finalmente saiu do papel em Memórias Póstumas. Instalado no centro do estádio, ele elimina a lógica tradicional de milhares de pessoas olhando para a mesma direção e coloca Jão literalmente cercado pelo público.
Não é uma invenção de Jão, evidentemente. Outros artistas já trabalharam com estruturas semelhantes. O que interessa é o que Jão faz com ela.
O círculo central funciona como um enorme espelho d’água. Jão canta molhado, dança molhado, os bailarinos incorporam a água às coreografias. Há chuva. Em outros momentos, entra o fogo. O palco deixa de ser apenas o lugar onde o cantor está e passa a funcionar como parte da narrativa.
Curiosamente, Memórias Póstumas não tem a cenografia monumental que marcou a SUPERTURNÊ. E não precisa.
A grandiosidade agora vem da soma. Água, fogo, iluminação, corpo de baile, figurinos, coreografias, dramaturgia e uma arquitetura que aproxima o artista do estádio inteiro e oferece perspectivas diferentes sem estabelecer uma frente privilegiada.
Há também um Jão diferente em cena. Mais seguro, mais elegante e muito mais disposto a usar o próprio corpo como parte do espetáculo. Ele dança. Ele percorre toda a estrutura. Ele domina aquele espaço.
Vocalmente, a segurança impressiona. Jão atravessa uma apresentação longa, exigente física e emocionalmente, mantendo precisão e controle mesmo nos momentos em que a encenação lhe cobra movimento, água e coreografia.
É uma evolução enorme em relação à turnê anterior.
A Morte também tem papel no show
Memórias Póstumas é dividido em cinco blocos: Espírito, Amor, A Perda, A Distração e A Vida.
Não são títulos decorativos.
As 26 músicas foram distribuídas de maneira a construir uma narrativa. Entre elas, surgem intervenções teatrais. Isabel Teixeira interpreta a Morte. Há um lobo, outro símbolo recorrente do universo de Jão. Há textos, personagens e elementos que reaparecem ao longo da apresentação.
Tudo é muito pensado. Muito ensaiado. Muito redondo.
E, ainda assim, não parece engessado, porque a espontaneidade sobrevive principalmente quando Jão conversa com o público.
É um show de estádio estranhamente introspectivo.
E essa talvez seja sua maior contradição.
Memórias Póstumas nasce de uma experiência profundamente dolorosa, atravessada pela morte do pai de Jão. Só que, diante de cerca de 60 mil pessoas, essa história também se transforma em uma enorme festa.
Há momentos em que o estádio parece uma pista de dança. Há outros em que parece teatro. E há aqueles em que dezenas de milhares de pessoas estão cantando sobre luto enquanto Jão atravessa um palco coberto de água.
A dor está ali. A euforia também.
E uma não anula a outra.
O disco que cresce no palco
Quando Memórias Póstumas foi lançado, o LatinPop Brasil deu ao álbum uma nota na casa dos 7.
Depois de vê-lo ao vivo, talvez seja necessário conversar sobre isso novamente.
Não necessariamente porque o disco tenha mudado. Mas porque o palco revela coisas que a gravação não revelava.
As músicas crescem muito, muito, muito ao vivo.
Ganham contexto. Ganham corpo. Ganham função dentro de uma história maior.
“Curioso”, que Jão revelou estar entre suas preferidas, recebe um novo arranjo belíssimo. Músicas antigas, pertencentes a outros momentos da discografia, também foram remodeladas para caber na atmosfera muito mais elegante desta turnê. Até “Me Lambe” aparece em outra moldura.
Talvez Memórias Póstumas sempre tenha precisado de um palco. E talvez Jão também precisasse dele para fazer as pazes com o próprio álbum.
Durante o espetáculo, o cantor contou que, depois de lançar um trabalho tão pessoal, chegou a se arrepender profundamente de tê-lo escrito.
Não porque tivesse deixado de acreditar nas músicas. O problema era perceber o que significava transformar em obra uma experiência tão dolorosa quanto a morte do próprio pai.
Escrever significava ter de contar.
Contar para jornalistas. Contar para fãs. Responder às mesmas perguntas. Explicar aquela dor. E depois subir ao palco e cantá-la novamente, noite após noite.
Jão falou sobre a necessidade de transformar esse sentimento, de construir uma relação diferente com uma obra da qual chegou a se arrepender justamente por ser pessoal demais.
É aí que o espetáculo ganha outra dimensão.
O palco não está apenas apresentando Memórias Póstumas ao público.
Pode estar ajudando o próprio autor a ressignificá-lo.
Aurora nasce. Catedral encerra.
A ordem do show ajuda a contar essa transformação.
Era fácil imaginar “Catedral”, uma das músicas mais diretamente relacionadas à morte do pai, abrindo um espetáculo chamado Memórias Póstumas. Da mesma maneira, “Aurora”, uma das músicas de maior repercussão do álbum, parecia candidata óbvia a ocupar um dos grandes momentos finais.
Jão fez exatamente o contrário.
“Aurora” abre o bloco Espírito e é a primeira música da noite.
“Catedral” é a última música do bloco A Vida e a última do espetáculo.
Antes dela, Jão avisa que chegou ao fim. Lê um texto. Explica a importância daquela canção e daquele momento.
Então canta.
E acabou.
Não existe bis.
Não existe a obrigação pop de voltar correndo ao palco para entregar mais um sucesso e provocar uma última explosão.
Depois de cinco atos construindo aquele arco, “Catedral” é o ponto final.
Qualquer música depois dela diminuiria o que acabou de acontecer.
Vinte e seis músicas e ainda faltou música
Outro problema que Jão já tem: repertório demais.
São 26 músicas e, mesmo assim, ficaram de fora sucessos como “Imaturo”, “Clarão” e “Pilantra”.
E ficou de fora “Olhos Vermelhos”.
Essa é difícil de perdoar.
Esse foi o único erro realmente incômodo de um setlist que consegue atravessar diferentes fases da carreira sem parecer que o álbum novo precisa abrir espaço à força para um bloco de greatest hits.
“Doce”, “A Rua”, “Alinhamento Milenar”, “Idiota”, “Me Lambe”, “Rádio”, “Meninos e Meninas” e outras faixas antigas continuam ali, mas foram incorporadas à narrativa de Memórias Póstumas.
Do disco novo, “João” é a ausência.
E existe algo impressionante no fato de que um artista relativamente jovem consiga tocar 26 músicas e terminar uma apresentação ainda deixando do lado de fora canções que uma parte enorme do estádio certamente saberia cantar.
Jão já tem repertório demais para caber em um show de Jão.
E então uma porta se abre
Mas o momento de maior impacto da noite não envolveu água, fogo, Morte ou lobo.
Durante “Meninos e Meninas”, uma porta se abriu.
E dela saiu Erika Hilton.
Não houve anúncio. Não houve preparação. Ela simplesmente apareceu no palco enquanto uma das músicas mais emblemáticas da relação de Jão com a bissexualidade era cantada diante de um estádio lotado.
O contexto torna impossível tratar aquilo apenas como uma participação surpresa.
A apresentação aconteceu três dias depois do Dia da Visibilidade Bissexual, celebrado em 23 de setembro, e a pouco mais de uma semana do primeiro turno das eleições. Erika Hilton é deputada federal e candidata à reeleição por São Paulo.
Jão não estava revelando ali uma posição política desconhecida. Estava ratificando publicamente e diante de dezenas de milhares de pessoas uma posição que nunca fez questão de esconder, escolhendo fazê-lo no maior palco possível e em um momento eleitoral particularmente significativo.
É difícil encontrar muitos artistas brasileiros de sua dimensão dispostos a fazer um gesto político tão explícito no meio de um espetáculo de estádio.
E a escolha de “Meninos e Meninas” torna tudo ainda mais simbólico.
A política não interrompe o conceito do show. Entra justamente em um espaço construído em torno de identidade, sexualidade, liberdade e pertencimento.
O estádio entendeu imediatamente o que estava acontecendo.
E explodiu.
Não é necessário concordar politicamente com Jão ou com Erika Hilton para reconhecer o tamanho e a clareza do gesto. Poucos artistas pop de estádio escolhem expor uma posição dessa maneira, diante de um público tão amplo, em um momento eleitoral tão próximo.
Jão escolheu.
O lugar seguro
Existe ainda uma coisa que nenhuma estrutura de palco compra.
O público de Jão acredita nele.
Isso é perceptível quando dezenas de milhares de pessoas sabem quando gritar, quando ficar em silêncio, quando completar uma frase e quando transformar uma canção em catarse.
A relação não parece construída apenas sobre admiração pelo artista. Existe um sentimento de pertencimento muito forte naquele estádio.
Jão entende isso e trata seus shows como um espaço seguro para quem está diante dele. Não como slogan jogado entre duas músicas, mas como parte da relação que estabeleceu com seu público ao longo dos anos.
Em Memórias Póstumas, isso ganha outra dimensão.
Desta vez, o artista está pedindo que o público entre em uma história muito mais dolorosa do que as grandes desilusões amorosas que atravessaram parte de sua discografia.
E eles entram.
É por isso o espetáculo consegue ser simultaneamente funeral e festa.
Se Jão cantasse em inglês
Existe um hábito particularmente brasileiro na maneira como consumimos pop.
Aquilo que chega dos Estados Unidos ou do Reino Unido frequentemente já desembarca com status de referência. O que nasce aqui precisa primeiro convencer o próprio país de que merece ser levado a sério.
É uma lógica curiosa.
Pagamos ingressos caros para ver artistas estrangeiros, atravessamos cidades para grandes turnês internacionais, aprendemos letras inteiras em uma língua que muitas vezes nem dominamos e acompanhamos minuciosamente as decisões criativas de estrelas anglófonas.
Fazemos tudo isso naturalmente.
Mas ainda existe resistência quando a grandiosidade vem acompanhada de uma letra em português.
Existe uma parcela do público brasileiro que parece precisar que o pop atravesse o aeroporto antes de considerá-lo sofisticado. O inglês funciona quase como um certificado prévio de relevância. Uma produção estrangeira pode ser excessiva e será chamada de grandiosa. Pode ser melodramática e será chamada de conceitual. Pode lotar um estádio e será imediatamente tratada como fenômeno mundial.
Quando um brasileiro faz algo equivalente, frequentemente precisa primeiro vencer a suspeita de que aquilo é apenas popular demais, adolescente demais ou brasileiro demais para ser considerado grande arte pop.
É o velho viralatismo cultural com uma nova playlist.
Isso não significa que alguém tenha obrigação de consumir música brasileira por patriotismo. Muito menos que seja obrigatório gostar de Jão. Gosto musical não se resolve com capacidade de estádio.
Também não é necessário diminuir Taylor Swift, Harry Styles, Bruno Mars ou qualquer outro nome internacional para reconhecer o fenômeno.
A questão é outra.
Por que o ponto de partida da comparação não costuma ser o mesmo?
Quando Taylor Swift transforma a música surpresa em ritual, aquilo entra imediatamente para a mitologia de sua turnê. Quando o Coldplay transforma pulseiras luminosas em parte essencial da experiência coletiva de seus shows, aquilo vira referência mundial.
Nenhum deles inventou isoladamente os recursos que utiliza.
O mérito está em incorporá-los a uma linguagem artística própria.
Jão também não inventou o palco 360º, a água, o fogo ou a dramaturgia em concertos.
O que ele fez foi reunir esses elementos e construir com eles uma linguagem reconhecível.
Depois da monumentalidade da SUPERTURNÊ, poderia simplesmente ter aumentado o tamanho de tudo. Preferiu mudar a lógica.
Tirou o palco do fundo do estádio. Colocou-se no meio do público. Cobriu esse palco de água. Usou o fogo como elemento cênico. Fez da Morte uma personagem. Dividiu 26 músicas em cinco atos. Transformou um álbum atravessado pelo luto em uma celebração coletiva da vida. E fez tudo isso mantendo um estádio inteiro conectado a uma história extremamente pessoal.
Isso é concepção de espetáculo.
Não gostar das músicas de Jão continua sendo perfeitamente legítimo.
Negar a dimensão do artista que ele se tornou exige uma discussão diferente.
Hoje, dentro do mercado brasileiro, é difícil encontrar outro nome do pop construindo espetáculos com esse nível de ambição, conceito, repertório, escala e domínio de palco.
E, quando a conversa passa especificamente pelo artista ao vivo, restringir a comparação ao Brasil já começa a parecer pouco.
O pop brasileiro não precisa imitar o americano para merecer a mesma seriedade crítica. Também não precisa atravessar uma fronteira, receber uma resenha estrangeira ou ser validado por uma premiação internacional para que só então percebamos o que estava acontecendo diante de nós.
Na sexta-feira, havia cerca de 60 mil pessoas diante de um espetáculo concebido em escala de estádio, tecnicamente sofisticado, teatral, autoral e construído por um artista brasileiro cantando em português.
Se aquele mesmo espetáculo viesse de Londres, Los Angeles ou Nova York e fosse cantado em inglês, provavelmente seria muito mais fácil chamá-lo de pop de classe mundial.
Veio de Américo Brasiliense.
O problema nunca foi o tamanho do Jão. É o tamanho da régua que o Brasil aceita usar para medir os seus.