Shakira sabe perfeitamente o tamanho da própria voz. Sabe mobilizar multidões, transformar experiências pessoais em acontecimentos globais e fazer de sua imagem uma das marcas mais valiosas da música latina. Também sabe utilizá-la para defender causas sociais. Mas, quando o debate chega às disputas eleitorais, a cantora parece preferir que essa voz não seja associada a nenhum lado.
A fotografia com Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madri e uma das figuras mais influentes da direita espanhola, trouxe essa contradição de volta ao centro das atenções. Não porque uma artista deva evitar encontros com autoridades, mas porque Shakira demonstra um cuidado extraordinário para impedir que sua imagem seja utilizada em campanhas políticas, enquanto essa mesma imagem circula, sem qualquer dificuldade aparente, nas redes sociais de uma liderança conservadora.
Ayuso publicou o registro celebrando o impacto econômico dos shows da colombiana em Madri. Para a política espanhola, a fotografia é uma oportunidade de comunicação institucional e de associação com uma celebridade internacional. Para Shakira, aparentemente, apenas mais um encontro público. O problema está justamente na diferença entre o rigor aplicado a determinadas associações políticas e a naturalidade com que outras acontecem.
Quando a neutralidade vira uma escolha conveniente
No Brasil, a discussão já havia surgido durante a mobilização dos fandoms em apoio a Luiz Inácio Lula da Silva.
Fãs de Shakira relataram uma orientação para não utilizar o nome, as fotografias ou os vídeos da cantora em campanhas eleitorais. Posteriormente, as próprias comunidades esclareceram que a restrição dizia respeito à associação da imagem da artista a candidaturas, sem impedir que seus integrantes participassem individualmente de manifestações políticas.
O episódio é revelador.
Estamos falando de uma artista cuja relação com os fãs vai muito além do consumo de música. Shakira construiu uma comunidade internacional que acompanha sua carreira há décadas, organiza campanhas, movimenta redes sociais e contribui diretamente para sua relevância comercial.
Entre esses admiradores está uma parcela expressiva do público LGBTQIAPN+, historicamente mobilizada em discussões sobre direitos civis, representação e liberdade.
É perfeitamente compreensível que uma celebridade deseje preservar sua autonomia diante de partidos. Mas há uma diferença entre independência e uma neutralidade administrada com tanto cuidado que qualquer manifestação eleitoral parece representar uma ameaça à marca.
E é justamente essa lógica que merece ser questionada. No Brasil de hoje, um dos seus principais mercados, há uma ameaça clara à democracia que não deveria ser indiferente.
O ativismo que não chega às urnas
Shakira não é uma artista alheia aos problemas sociais. Sua atuação em defesa da educação, especialmente por meio da Fundação Pies Descalzos, é conhecida internacionalmente. Na Colômbia, já criticou a violência contra manifestantes e cobrou respeito aos direitos humanos.
Essas iniciativas são importantes e fazem parte de sua trajetória.
Mas educação, direitos humanos, diversidade e combate à desigualdade não existem em um universo separado da política institucional. São temas diretamente afetados por eleições, decisões de governo e projetos de sociedade.
É relativamente confortável defender a educação como princípio universal. Mais difícil é entrar no debate quando políticas públicas, direitos conquistados e instituições democráticas passam a ser disputados por forças políticas concretas.
O ativismo social não perde valor porque uma artista evita campanhas eleitorais. Mas também não deveria funcionar como uma espécie de território protegido, no qual é possível defender causas sem jamais enfrentar as disputas de poder que determinam seu futuro.
Shakira conhece a dimensão de sua influência. E é precisamente por isso que seu silêncio eleitoral chama atenção.
A proximidade com o poder não é novidade
A relação da colombiana com o universo político também não começou com Ayuso.
Durante aproximadamente 11 anos, Shakira manteve um relacionamento com Antonio de la Rúa, filho de Fernando de la Rúa (Centro-Direita), presidente da Argentina entre 1999 e 2001. Antonio também participou da administração de sua carreira.
A experiência colocou a cantora em contato próximo com uma família presidencial e com os bastidores de um ambiente no qual imagem pública, poder e interesses institucionais frequentemente se encontram.
Não se trata de procurar nesse relacionamento uma explicação automática para suas convicções. O ponto é outro: Shakira conhece há décadas o funcionamento da exposição política e sabe que fotografias, encontros e associações públicas possuem significados que ultrapassam a intenção individual de quem aparece neles.
Por isso, é difícil tratar a circulação de sua imagem como algo inteiramente dissociado das disputas que ela procura evitar.
Outros artistas escolheram não ficar em silêncio
O contraste com as manifestações de artistas internacionais nas eleições brasileiras é significativo.
O uruguaio Jorge Drexler declarou apoio a Lula. Christian Chávez e Alfonso Herrera, conhecidos por suas trajetórias no RBD, também tornaram públicas suas posições. Madonna compartilhou uma mensagem eleitoral em defesa da democracia, dos povos indígenas, da Amazônia, da educação, da cultura e da liberdade de ser quem se é.
A lista de manifestações internacionais inclui ainda nomes como Roger Waters e Tom Morello. Bad Bunny autorizou o uso de Lo Que Le Pasó a Hawaii na campanha de Lula.
Nenhum desses artistas precisava entrar no debate brasileiro para promover um disco, anunciar uma turnê ou vender ingressos. Escolheram se manifestar porque consideraram que a disputa ultrapassava a preferência por um candidato.
Há uma diferença importante entre transformar uma carreira em instrumento partidário e reconhecer que determinados momentos históricos exigem posicionamentos mais claros.
Quando uma eleição coloca em discussão o futuro de instituições democráticas, a liberdade de expressão e os direitos de grupos historicamente vulnerabilizados, a decisão de participar do debate ganha uma dimensão que vai além da disputa entre personalidades políticas.
E os artistas, especialmente aqueles que construíram carreiras internacionais e conquistaram enorme influência cultural, também fazem parte dessa sociedade.
A neutralidade também comunica
Shakira tem uma relação profunda com a América Latina. Nasceu na Colômbia, construiu uma carreira que atravessou o continente e se tornou uma das maiores representantes da música em espanhol no mundo.
Seu público não é formado apenas por consumidores de entretenimento. São pessoas que vivem as consequências das decisões políticas tomadas em seus países, inclusive aquelas relacionadas às causas que a cantora escolhe defender.
É nesse contexto que a neutralidade deixa de ser apenas uma decisão de comunicação e passa a merecer uma reflexão mais ampla.
A cantora não precisa transformar suas redes sociais em palanque permanente. Mas é razoável esperar que alguém com sua trajetória e influência tenha disposição para participar de debates decisivos, especialmente quando envolvem princípios que já fazem parte de sua atuação pública.
A foto com Ayuso tornou essa discussão mais visível. O episódio dos fandoms brasileiros mostrou como a preocupação com associações eleitorais se traduz em orientações concretas. E o posicionamento de outros artistas evidencia que existem caminhos diferentes para lidar com a responsabilidade de uma voz pública.
O que incomoda na postura de Shakira não é a ausência de uma declaração de voto. É a impressão de que seu ativismo encontra um limite justamente quando defender determinados princípios pode exigir uma escolha politicamente desconfortável.
A neutralidade pode proteger uma marca, preservar mercados e evitar desgastes com parcelas do público. Mas uma carreira construída também sobre causas sociais deveria comportar mais do que manifestações capazes de reunir consensos.
Shakira tem voz, alcance e influência para participar de discussões que afetam diretamente milhões de pessoas que a acompanham. Já demonstrou disposição para isso em diferentes momentos de sua trajetória.
Em tempos de tensão democrática, seria importante vê-la usar essa força com a mesma convicção com que defende suas causas.